Uma vez caí numa que eu vou contar para vocês! Estava procurando estágio quando achei um bem interessante, para trabalhar no departamento comercial de uma indústria de tintas. Na entrevista me explicaram que eu trabalharia direto nas revendas como uma consultora técnica. A bolsa-auxílio era muito boa e ainda incluía assistência médica, odontológica, vale-refeicao e transporte. Peguei na hora!
No final das contas acabei como balconista de uma pequena loja de material de construcao na periferia de Curitiba. Foi um choque para mim pois eu havia acreditado na história da "consultora técnica" ou algo parecido e além disto eu estava acostumada a trabalhar em lugares bonitos, grandes empresas situadas em belos enderecos, no ambiente eu convivia com pessoas elegantes, de bom nível social, etc. E de repente me vi trabalhando num lugar feio, onde eu tinha que limpar o balcao todos os dias de tanta poeira que vinha da rua. Meus novos colegas haviam estudado mais ou menos até a oitava série e bastava. Outra coisa foi que em meus trabalhos eu nunca precisei erguer uma cadeira sequer, ali nao, eu empilhava latas de tinta o dia inteiro, tirava o pó delas, usava solvente para remover manchas de tintas que porventura pudessem ocorrer, tinha que recolher meu próprio lixo, eu me sujava e erguia peso, no dia em que chegava mercadoria eu ia para casa com dores nas costas. Tudo era novidade para mim! Eu havia caído do céu e ido parar no limbo.
Foi uma grande experiência de vida, a comecar pela comida: Ao contrário dos outros lugares onde trabalhei onde havia um restaurante da própria empresa para os funcionários, além dos restaurantes e lanchonetes já existentes no bairro, lá nao! Havia apenas uma cozinha onde cada um preparava seu Miojo, ou entao comia a sua marmita. Comecei a pedir marmita, mas desisti ao perceber que ela era cheia de arroz, aguada com um pouquinho de caldo de feijao e finalizada por um pequeno bife que sempre chegava frio e duro. A salada se resumia a um potinho minúsculo, equivalente a meio copo de requeijao. Depois optei por um restaurante de beira de estrada, mas após uma semana comendo neste local nao conseguia mais sentir o cheiro da comida (e olhem que eu nao sou fresca para comer, hein?). Comi coisas de aparência suspeita, por fome, por falta de opcao. No final das contas optei por comprar frutas num mercadinho que havia ali perto e só comia comida de verdade à noite no RU (restaurante universitário) da Reitoria.
Outra coisa interessante foi a resistência dos vendedores da loja de material de construcao em me aceitarem no grupo. Nem mesmo o gerente da loja jamais havia sentado num banco de universidade e eu estava lá, estudante universitária para dizer a eles como vender tinta, justo para eles que já eram vendedores de material de construcao há tantos anos. Fora a questao da minha aparência, pois para eles eu era uma patricinha, isto que eu usava uniforme, mas algo em mim dizia a eles que eu era diferente, nao consegui descobrir exatamente o quê. Com o passar do tempo consegui fazer amizade com duas vendedoras, mas meu sentimento no geral é que eu era uma estranha no ninho.
Porém a parte que realmente revolucionou minha forma de pensar foi perceber a atitude dos clientes, que eram em sua maioria moradores da periferia, pessoas sem muito estudo e de condicao financeira modesta, mas o simples fato de estarem construindo uma casinha de 50 metros quadrados parecia que conferia a eles o direito de agirem como reis dentro da loja, bem naquele estilo "Tô pagando, eu mando!". Nos seis meses que fiquei nesta loja foram poucos os clientes que conversaram comigo comigo de igual para igual. A maioria me tratava como se eu fosse uma servical, ou como se eu simplesmente nao existisse. Ouvi muito desaforo, muita piadinha de mau-gosto. Um dia preparei uma tinta para um cliente, mas a lata estourou dentro da máquina que agitava a mistura. Quando tirei a lata de dentro da máquina, tive que limpar toda aquela lambuzeira de tinta, tanto da lata quanto do interior do agitador. O cliente olhou para mim penalizado, mas com um certo sarcasmo e me disse: "Que empreguinho, hein?"
Neste dia fui para casa e chorei demais, demais, demais. Eu estava procurando outro estágio ou emprego, mas nao encontrava. Mesmo assim agüentei firme, porque eu morava sozinha e precisava do salário e do seguro odontológico. Percebi que aquelas pessoas eram as mesmas que, quando eu trabalhava de tailleur e pasta de couro, se aproximariam de mim me chamando de senhora, em tom respeitoso e se a conversa se prolongasse diriam que eram pessoas humildes, sem estudo, mas de bom coracao e muito esforcadas. Digo isto porque gosto de conversar com gente estranha na rua, estas conversinhas curtas de ponto de ônibus ou dividindo uma mesa numa lanchonete qualquer. Engracado que naquele momento eu estava ali, cara a cara com este mesmo tipo de pessoa e sendo tratada como se eu fosse uma ignorante, só porque eu estava atrás de um balcao para atendê-los.
Percebi que eu estava ali para pagar um karma e para aprender uma grande licao. Antes eu achava uma injustica o dono da empresa ganhar tanto dinheiro enquanto alguns de seus funcionários passavam necessidade. Eu acreditava que os ricos eram os maus e os pobres bonzinhos, como nas novelas mexicanas. Mas de certa forma entendi como funciona o capitalismo: nao existe lugar sob o sol para todo mundo, existe uma máquina impiedosa que te faz cada vez mais competitivo e quanto mais no topo, mais difícil de se manter, a pirâmide se estreita... E que as pessoas que estao na base desta mesma pirâmide e se queixam da tirania dos que estao acima delas, provavelmente também seriam tiranos se estivessem lá no topo e provavelmente sao tiranos com com aqueles que estao abaixo deles na mesma pirâmide.
Foi mais ou menos isto que tentei explicar na minha
fábula apesar desta ter sido inspirada em outro evento.
Aprendi que o fato de uma pessoa ser pobre nao faz dela modesta ou humilde. Sao coisas bem diferentes, encontramos pessoas modestas e/ou humildes em todas as camadas sociais. Nem todas as pessoas aprendem com a pobreza e dificuldades a terem um coracao nobre e a tratarem aos outros como gostariam de serem tratadas. Percebi a tirania da natureza humana, independente de qualquer coisa.
Este emprego fez um mal terrível à minha auto-estima. Comecei a me acreditar burra, incapaz, menos. Diariamente eu me sentia humilhada, fosse pelos clientes, fosse pelos colegas de trabalho. Enquanto isto meus colegas de faculdade estavam sendo efetivados em bancos, indústrias, consultorias, aprendendo muita coisa relacionada à Administracao. E eu atrás de um balcao de tintas, fazendo meus trabalhos de faculdade escondida nas horas vagas.
Depois mudei de loja, fui para uma unidade onde o gerente era um homem experiente e nao tinha medo de perder o emprego para mim só pelo fato de eu estar na universidade e ele nao, ele se garantia no posto de trabalho com seus 20 anos de experiência no ramo! Lá fui muito bem aceita pelos vendedores, era legal porque eles vinham às vezes me pedir ajuda para escrever alguma coisa mais formal ou entao me perguntar sobre que curso de informática seria bom eles matricularem seus filhos adolescentes, etc, enquanto isto eu aprendi muito sobre a profissao deles, o jeito de lidar com clientes, etc. Estes colegas me trataram de igual para igual, me senti útil, aceita e feliz por isto. O tratamento por parte dos clientes, porém, continuava do mesmo jeito. Só que desta vez tinha uma pequena diferenca: Os vendedores me defendiam nestas situacoes.
Mas nisto já consegui um emprego do jeito que eu queria, numa multinacional, na minha área. Porém levei muito tempo para absorver tudo o que aconteceu lá, atrás do balcao, comigo. Levei muito tempo para voltar a acreditar em mim. Levei muito tempo analisando a preciosa licao que a vida me deixou: Nao se deixe enganar pelas aparências, nunca! Existe realmente muito lobo em pele de cordeiro! Sao duas frases clichês, mas depois de tudo o que eu vivi percebi que estas frases nao sao repetidas à toa, elas realmente têm um porquê de existirem.
E hoje minha visao é mais ou menos assim: Cada vez que encontro uma vendedora encolhida atrás de um balcao, uma pessoa que faz limpeza ou algum outro trabalho chato ou mesmo que na sociedade é dada pouca importância, eu procuro olhar nos olhos da pessoa, sorrir, pois eu já estive numa situacao assim e sei o quanto significa para nós quando um cliente é legal e trata a gente bem!!! Parece que vamos para casa mais felizes, mais importantes. Os dias em que somos sucessivamente tratados como um nada, com um "Tô pagando, eu mando, foda-se você!" um cliente após o outro sao dias simplesmente terríveis! A pessoa que está ali atrás do balcao é um ser humano também, que tem problemas e sonhos como todo mundo, que tá de saco cheio de atender gente chata e mimada o dia inteiro, nao é apenas um número, um robot!
Uma vez conheci uma pessoa muito bem sucedida profissionalmente que desfrutava dos prazeres de quem estava bem perto do topo da pirâmide. Ela era extremamente cortês e atenciosa com manobristas, atendentes, faxineiras, garcons, etc. Um dia disse para esta pessoa o quanto eu admirava o jeito dela com as pessoas: tratar da faxineira ao presidente da companhia com o mesmo respeito. Esta pessoa sorriu e me disse: Venho de uma família simples! Esta faxineira poderia ser minha mae, poderia ser eu se eu nao tivesse saído da vilazinha onde nasci!
Shanaína, o mundo dá voltas!
A licao ficou!
Entao queria deixar esta mensagem: Seja legal com a pessoa que te atende. Um dia poderá ser sua mae, você ou seu filho no lugar dela! Já pensou?