27.1.06

Fábula: a pobreza e a humildade


Era uma vez uma abelha chamada Belle. Ela nasceu pobre e feia num minúsculo casulo, numa colméia distante. Desde cedo Belle foi trabalhar de operária no casulo das abelhas mais ricas. Sua vida era dura, com muitas privacoes, sofrimento, pouco tempo para brincar e estudar. Belle foi muito humilhada pelas abelhas privilegiadas, elas riam de seus farrapos, da sua simplicidade e da sua feiúra.

Um dia Belle foi tentar a sorte grande na maior colméia do distrito. Era uma colméia muito grande, bonita e com muitas oportunidades para abelhas-operárias.
Belle foi morar e ao mesmo tempo trabalhar para uma velhinha. Belle fazia de tudo: entregava potes de mel, varria o casulo da velhinha, fazia asas de crochê para vender na feira, etc. Belle era amada e respeitada por todos por ser uma abelha simples e humilde. Com o passar do tempo, Belle decidiu fazer um curso de upgrade apícola e conseguiu emprego numa loja de essências florais num shopping center.

Belle cativava a todos com sua humildade, sua difícil história de vida e com sua surpreendente inteligência, a rapidez com que ela aprendia as coisas. As demais abelhas do shopping a admiravam e todas eram suas amigas: a abelhinha que trabalhava na loja de asas de noiva, a da loja de cera, a da loja de estruturas para favos, a da loja de própolis, etc. Belle era iniciante naquele tipo de trabalho e teve que aprender novas maneiras, pois ela era muito simplória. Uma abelha lhe ensinou boas maneiras à mesa, a outra como usar pólen compacto na maquiagem, a outra ensinou-lhe a trabalhar com a máquina registradora e outra ensinou-lhe como escolher asas que lhe caíssem bem. Todas ficaram felizes com a rapidez dos progressos de Belle. Zazá e Pólen eram suas amigas mais próximas e ambas tinham uma admiracao muito grande por ela.

Belle comecou a se destacar profissionalmente, chamando àtencao da diretoria da loja de essências florais. Em pouco tempo ela comecou a ter abelhinhas sob o seu comando. Nisto Belle já estava um pouco diferente: se vestia com bom-gosto e sabia se portar diferente em diversas ocasioes, todos perceberam que Belle nao era feia, somente mal cuidada, a beleza de Belle se punha a cada dia mais em evidência. Ela também saiu do casulo da velhinha e foi morar num casulo grande com outras abelhinhas amigas dela. Belle tinha mania de limpeza e organizacao, heranca de seus tempos difíceis trabalhando para as abelhas ricas e caprichosas que a humilharam.

Todas as abelhas ficaram felizes ao saberem da notícia da promocao de Belle, nao cansavam de elogiar o brilhante desempenho dela. Com o passar do tempo Belle foi se tornando impaciente com suas operárias, qualquer erro e ela punha-se a gritar e também nao gostava de explicar o trabalho para elas. As abelhinhas amigas de Belle nao sabiam de nada disso, apenas ouviam com ar de espanto os desabafos dela sobre a incompetência de suas operárias e chegaram à conclusao que Belle teve azar de ter sob seu comando um time tao fraco. As abelhas que dividiam o casulo com Belle punham-se loucas com a mania de limpeza e organizacao de Belle, nunca nada estava de acordo com os padroes de higiene dela e ela punha-se a reclamar da bagunca sempre que podia.

As abelhas operárias de Belle logo pediram as contas e conseguiram emprego nas outras lojas do shopping center, junto com as abelhas que eram amigas de Belle. Zazá e Pólen ficaram tristes por estarem recebendo abelhas tao incompetentes como colegas. Com o passar do tempo, porém, perceberam que estas operárias eram excelentes e sabiam até zunir em outros idiomas. Belle sequer aprendera zunhanhol, um zunido do distrito vizinho, muito parecido com o zunhinguês que se falava ali. Zazá e Pólen fizeram excelentes trabalhos com estas ex-operárias de Belle. Algo nesta história estava mal-contado.

Pólen, que era uma artrópode muito meiga e delicada, tentou um dia conversar com Belle sobre suas ex-operárias. Belle deu-lhe umas belas ferroadas e desde entao riscou Pólen de sua vida. Pólen ficou triste, pois nao esperava uma reacao como esta da amiga, mas nao disse palavra alguma. Belle, porém, nao parou por aí e comecou a fazer a cabeca de Zazá e das outras abelhas contra Pólen, dizendo que ela tinha acúcar demais no mel dela e isto a enjoava e que ela era muito abelhuda e metia o palpo onde nao era chamada. Zazá ficou na dela, mas sem perceber se afastou de Pólen.

Belle estava cada dia mais egoísta e segura de si. Explorava suas novas operárias até o último enquanto ela se punha a dar voltas pelo shopping e pela praca de alimentacao, bebia as essências e ficava ao telefone com as outras abelhas. Na hora de apresentar os resultados para a diretoria da loja de essências ela dizia que tinha feito tudo sozinha e aproveitava para criticar o péssimo trabalho de suas operárias. A diretoria acreditava em tudo. As demais abelhinhas do shopping center, porém, comecaram a perceber e a se afastarem de Belle. Por um lado elas continuavam a admirar sua forca e sua inteligência, mas por outro comecaram a temer Belle pois ela estava usando seus dotes para o mal. Ninguém se atrevia a criticá-la com medo de suas apitoxinas.

A situacao estava neste ponto quando Belle recebeu o convite para trabalhar numa contrutora de colméias, ela teria um trabalho muito importante lá. Apesar do mau gênio de Belle e dos incidentes ocorridos, no fundo as abelhas amigas torciam por ela e acreditavam que era apenas uma má fase, coisinha passageira, a maioria ainda ficou muito feliz pelo destaque profisional dela. Belle, porém a partir deste momento descartou a amizade de todas as abelhinhas do shopping, com excecao à Zazá. Belle nesta altura do campeonato já estava morando em seu casulo próprio e feito mais um upgrade apícola. Ela realmente havia evoluído muito.

Agora Belle só lidava com abelhas engenheiras, arquitetas e decoradoras. As abelhinhas operárias-vendedoras eram passado, ela nem as cumprimentava mais e quando ia ao shopping limitava-se a dizer o teor de sua compra. Ela aterrorizou a vida da abelhinha vendedora da loja de asas de noiva, pois os vestidos de festa por ela a cada estacao encomendados estavam sempre imperfeitos, diante de seus olhos compostos e multifacetados de abelha nenhuma falha lhe passava despercebida. Ela era realmente muito exigente.

Só Zazá sobrou como amiga daquele tempo. Um dia um jovem zangao alertou-a que a amizade de Belle era somente interesse. Zazá se recusou a acreditar na idéia do jovem zangao, defendeu Belle até o último argumento.

Um dia o cano do casulo de Zazá rompeu encharcando todo o seu lar. Zazá resolveu correr para suas vizinhas mais próximas: Pólen e Belle. Mas como fazia muito tempo que ela nao falava mais com Pólen, logo decidiu ir à casa de Belle pois esta lhe telefonava quase que diariamente. Chegando no casulo de Belle, Zazá tocou a campainha, mal esperando poder ver a amiga e contar-lhe o infortúnio. Belle veio feliz atender a porta, mas quando ela abriu a porta e viu Zazá, seu sorriso se petrificou. Ela aprumou-se arrogantemente e disse para Zazá: "Sua abelhuda, eu nao te convidei para esta festa, o que você está fazendo aqui, quem te contou??? Quem te contou???" Zazá viu por trás de Belle uma festa rolando com muitas abelhas chiques bebendo e dancando. Zazá tentou se explicar, mas diante de uma recepcao tao fria, viu que nao mudaria muita coisa, apenas pediu desculpas e foi embora.

Chegando em seu casulo porém, Zazá viu Pólen e um pequeno enxame de abelhas reunidas diante de sua porta. Pólen havia escutado o barulho do cano romper-se e imediatamente chamou suas amigas para fazerem um mutirao para ajudarem Zazá. Zazá naquela noite dormiu muito feliz por ter conhecido a verdadeira índole de suas amigas Belle e Pólen. Zazá naquela noite aprendeu uma licao que guardaria pelo resto de sua vida. Tanto é que Zazá e Pólen sao amigas até hoje. Belle troca de amigos a cada promocao de cargo.

A partir de entao naquela colméia a palavra pobreza nunca mais foi sinônimo de humildade e/ou modéstia. Todos perceberam que certas abelhas sao humildes somente enquanto nao têm outra alternativa na vida, assim que têm a chance passam a humilhar as outras abelhas também. Certas abelhas nao aprendem a licao que a vida lhes deu. Certas abelhas deixam o poder e o glamour subirem-lhem pelas anteninhas e nunca mais tornam a ser as pessoas humildes e modestas que um dia foram. A pior pobreza nao é a financeira, mas sim a de espírito e esta sucesso profissional nenhum irá encobrir, talvez só aumentar. Infelizmente.

(Nao sou La Fontaine, mas me atrevo a escrever umas fábulazinhas de vez em quando!)

5 comentários:

claudia correa disse...

Jana,
Sensacional esta fábula!! É de sua autoria? Beijocas

Jana disse...

Oi Clau, fui eu quem inventou sim!
Beijos!
Jana

Aline disse...

Como você é fofa, Jana! Amei!!! Quando puder manda umas, quero fazer uma coletânea para ler para as crianças!

Fofíssima!

Beijos,

Aline

VaL disse...

Hahahahah ... adorei !!

Anônimo disse...

OLÁ!! MEU NOME É ALINE E TB MORO NA ALEMANHA(POTSDAM)
GOSTEI MUITO DA FÁBULA:::MUITO EDUCATIVA. PARABÉNS!!