The New York Times
18:57 14/12
Peter Schneider
Na noite de 7 de fevereiro de 2005, Hatun Surucu, 23, foi morta enquanto caminhava para um ponto de ônibus em Berlim-Tempelhof, com vários tiros na cabeça e na parte superior do corpo, realizados à queima-roupa. Uma investigação revelou que, meses antes, ela havia denunciado seu irmão à polícia por ameaçá-la. Agora três de seus cinco irmãos estão sendo julgados por matá-la.De acordo com a acusação, o mais velho deles (25) conseguiu a arma, o irmão do meio (24) levou sua irmã à cena do crime e o mais novo (18) atirou. O julgamento começou em 21 de setembro. Ayhan Surucu, o irmão mais novo, havia confessado o assassinato e alegou que tinha realizado o crime sem a ajuda de ninguém.
De acordo com Seyran Ates, um advogado de ascendência turca, geralmente o mais novo é o escolhido pelo conselho familiar para realizar assassinatos como este – ou para assumir a culpa. A lei juvenil alemã determina um máximo de 10 anos de prisão por assassinato, e o condenado tem a chance de ser solto depois de cumprir um terço da pena.
Hatun Surucu cresceu em Berlim como filha de curdos turcos. Quando terminou a oitava série, seus pais a tiraram da escola. Pouco depois daquilo, ela foi levada para a Turquia e casou-se com um primo. Depois de se separar, voltou grávida para Berlim. Com 17 anos ela deu a luz a seu filho, Can.
Ela se mudou para um abrigo de mulheres e completou o que faltava para receber o diploma escolar. Em 2004 ela havia terminado a escola técnica e se tornou eletricista. A jovem mãe que havia se livrado das restrições familiares começou a se dar valor. Começou a usar maquiagem, cabelo solto, saia para dançar e se enfeitava com anéis, colares e braceletes.
Então, alguns dias antes de receber seu diploma de trabalhadora experiente, alguém deu um fim a sua vida. Evidentemente, aos olhos de seus irmãos, o pecado capital de Hatun Surucu foi que, vivendo na Alemanha, ela havia começado a viver como uma alemã.
Há um novo muro crescendo na cidade de Berlim. Para cruzá-lo você precisa ir aos distritos centrais e do norte – para Kreuzberg, Neukoelln e Wedding – e você se verá em um mundo desconhecido para a maioria dos berlinenses.
Até recentemente, a maioria deles tinham a ilusão de que viver junto com aproximadamente 300 mil muçulmanos imigrantes e filhos de imigrantes era basicamente trabalhar com eles. Veja Neukoelln. O distrito se orgulha do fato de abrigar cidadãos de 165 nações diferentes. Cerca de 40% deles, de longe o maior grupo, são turcos e curdos; o segundo maior grupo consiste de árabes.
Como explica Stefanie Vogelsang, uma assistente social de Neukoelln, os moradores falam sobre “nossos turcos” de uma maneira bem amigável, postura essa que não se repete quando se trata de árabes, que chegaram décadas depois dos turcos e geralmente ilegais.
Mas a tolerância dentre os imigrantes começou a mudar logo depois do 11 de setembro de 2001. Paralelas às declarações de “solidariedade incondicional” com os americanos por parte da maioria alemã, conflitos de outros tipos estavam acontecendo em Neukoelln e Kreuzberg.
Bombas caseiras eram arremessadas dos jardins de prédios. Uma aqui, outra ali e, de repente, centenas delas varavam o céu em celebração ao ataque. Para muitos residentes alemães em Neukoellnn e Kreuzberg, Vogelsang aquela era a primeira vez que eles paravam para se perguntar que eram os vizinhos na realidade.
Quando um maior público alemão começou a se preocupar com o paralelo mundo muçulmano que se erguia a seu redor, foi inicialmente graças a três autoras: Ates, “The Great Journey Into the Fire”; Necla Kelek, “The Foreign Bride”; e Serap Cieli, “We´re Your Daughters, Not Your Honor”. Partindo da própria experiência delas, as mulheres descrevem as vidas amargas e a tristeza das mulheres muçulmanas naquela democracia ocidental moderna conhecida como Alemanha.
Seyran Ates estima que talvez metade das jovens turcas que vivem na Alemanha são forçadas a se casarem todo ano. Junto com esses casamentos forçados geralmente vem a violência e o estupro; a noiva não tem escolha senão cumprir os deveres do casamento arranjado pelos pais e irmãos.
Mulheres bastante veladas, vestindo logos casacos durante o verão estão se tornando uma figura cada vez mais familiar nos bairros muçulmanos da Alemanha. De acordo com a pesquisa de Necla Kelek, elas são na maioria garotas menores de idade que foram vendidas – geralmente por um bom pagamento – nos vilarejos turcos centrais de Anatólia por mães cujos filhos na Alemanha estão prontos para casar.
As garotas são então levadas para a Alemanha, e “com cada noiva importada”, Kelek diz, “a sociedade paralela cresce”. Enquanto isso, Ates sumariza, “homens turcos que desejam se casar e viver pela Shariah podem fazê-los com bem menos impedimento em Berlim do que em Istambul”.
Depois de 1945, no processo de reconstrução, era necessário maior número de trabalhadores e iniciaram campanhas de recrutamento em países pobres da Europa e na faixa mediterrânea: Itália, Espanha, Grécia, Turquia, Tunísia e Marrocos. Não é por acaso que os trabalhadores imigrantes eram chamados de “gastarbeiter”, ou seja, trabalhadores convidados. Espera-se que os convidados saiam depois de um tempo.
Naturalmente, as coisas não funcionaram como esperado. Eventualmente imigrantes muçulmanos queriam que suas famílias se juntassem a eles, para que seus filhos recebessem educação e um futuro melhor. A Alemanha não deu a eles passaportes ou direitos de voto, mas os incorporou no sistema social e deu a eles a oportunidade de avanços sociais.
Um resultado disso foi o aumento da classe média muçulmana – relativamente grande em comparação com as da França e da Inglaterra – contribuindo com cerca de 39 bilhões de euros anuais para o produto interno bruto e bilhões para os fundos de pensão. Mas como o milagre econômico alemão teve um fim, a condição mais importante, a condição mais importante desse idílio precário mudou.
Apesar do recrutamento ativo ter acabado em 1973, mais e mais turcos e curdos se mudaram para a Alemanha, de acordo com uma lei que visava a reunificação das famílias. E esses pais, mulheres, maridos e filhos passaram a exercer seu estilo de vida nas ruas alemãs.
Enquanto que nos primeiros anos de imigração, as mulheres turcas vestiam roupas ocidentais, agora elas apareciam em longas saias floridas, jaquetas de tricô e véus fortemente amarrados na cabeça. Nos fundos das bancas de vegetais e das lojas de falafel, salas de oração se disseminaram, e logo viraram mesquitas.
Necla Kelek perguntou a um grupo de “noivas importadas” que tinham vivido na Alemanha por muitos anos como elas haviam se preparado para o futuro aqui. As respostas: risadas incrédulas. Preparar? Como e para que? “Mas como vocês podem agüentar a vida aqui?” Nekla continuou. “Vocês não têm nada a ver com este país, vocês desprezam sua cultura e o modo como as pessoas vivem aqui”. Mas nós temos tudo que necessitamos aqui, foi a resposta, não precisamos dos alemães.
Algumas centenas de milhares de imigrantes muçulmanos foram capazes de recriar, na Alemanha, a vida de seus ancestrais na Anatólia. Na verdade, talvez a vida na Anatólia seja mais moderna e secular do que nos distritos muçulmanos de Berlim.
Por mais de 20 anos a Federação Islâmica de Berlim, uma organização guarda-chuva de associações islâmicas e congregações de mesquitas, se esforçou nas cortes de Berlim para assegurar educação religiosa islâmica em escolas locais. Em 2001 a federação finalmente conseguiu seu intento.
Desde então, milhares de escolas islâmicas de ensino fundamental acolheram professores contratados pela Federação Islâmica, pagos pela cidade de Berlim. Fiscais municipais não estão aptos a fiscalizar o ensino religioso islâmico. Freqüentemente o ensino não corresponde à grade curricular alemã. Além das deficiências lingüísticas dos estudantes, os professores geralmente dão aulas em turco e árabe, na maioria das vezes às portas fechadas.
Desde a introdução do ensino religioso islâmico, o número de meninas que vêm às escolas vestindo véus na cabeça cresceu absurdamente, e as diretorias das escolas estão inundadas de pedidos para a dispensa de garotas das aulas de natação ou esportes.
A assistente social Stefanie Vogelsang lembra que a maioria das mesquitas em Neukollen estão abertas ao mundo como sempre estiveram, e que elas continuam a lidar com questões de integração. No entanto, as comunidades religiosas radicais estão ganhando terreno.
Ela aponta a mesquita de Imam Reza, por exemplo, cuja home page louvava os ataque de 11 de setembro, diz que as mulheres são humanos de segunda classe e se referia a gays e lésbicas como animais. “E esse tipo de coisa”, ela diz bufando, “é defendida pela esquerda como liberdade religiosa”.
Essa é a provocação menos esperada das três autoras: uma afronta ao relativismo da maioria da sociedade. De fato, elas estão lutando em dois fronts – contra a opressão islâmica às mulheres e a seus propositores, e contra a tolerância dos multiculturalistas liberais.
“Antes de chegar aos patriarcas islâmicos, eu primeiro tenho que trilhar meu caminho por essas montanhas de culpa alemã”, reclama Seyen Ates.
As políticas de imigração alemãs (e o multiculturalismo) são apenas um lado do problema. O outro é a recusa de muitos na comunidade islâmica em se integrarem. É uma ilusão acreditar que um passaporte alemão – francês ou holandês – e direitos de cidadania plena são suficientes para transformar todos os muçulmanos em cidadão fiéis.
“Os ataques em Londres”, diz Seyran Ates, “foram encarados por muitos muçulmanos como um tapa na cara da comunidade ocidental. Os próximos criminosos serão os filhos da terceira ou quarta gerações dos imigrantes, que – sob os olhos dos políticos bem intencionados – serão criados desde o berço para odiarem a sociedade ocidental”.
É só uma questão de tempo, diz Ates, antes que Berlim passe pelos ataques como os de Londres e Paris. Quando nós conversamos, as revoltas de Paris ainda não tinham ocorrido.
Políticos e acadêmicos religiosos de todas as crenças estão certos em lembrar que há muitas variedades de Islã, que islamismo e islã não deveriam ser confundidos, e que na há nenhuma linha no Corão que justifique o homicídio.
Mas a afirmação de que o fundamentalismo radical islâmico e o Islã não têm nada a ver um com e como dizer que não há qualquer ligação entre o stalinismo e o comunismo. O fato é que apesar dos direitos das mulheres – especialmente o direito à autodeterminação sexual – é um componente integral de quase todas as sociedades islâmicas, incluindo aquelas do Ocidente.
A não ser que seja resolvido esse problema, com uma reforma correspondente do Islã praticado no Ocidente, nunca haverá uma aculturação bem sucedida. O Islã necessita algo como um Iluminismo; e somente ao bater bastante na tecla do próprio Iluminismo deles, com a separação entre religião e Estado, é que as democracias ocidentais conseguirão persuadir seus residentes muçulmanos que os direitos humanos são válidos universalmente.
Talvez isso levaria às reformas necessárias para a integração ser bem sucedida. “Nós, mulheres muçulmanas do Ocidente”, diz Seyran Ates, “vamos desencadear a reforma do Islã tradicional, porque somos suas vítimas”.
Dentro do casulo há sempre uma borboleta.