No mais esta semana fazemos 1 ano de Alemanha... acho que amadureci
muito neste um ano. Antes eu era boca aberta, e muitas vezes na minha
vida falei sem pensar. Como agora tenho que me expressar 80% do tempo
em uma língua que nao é a minha, e que muito menos eu sei direito, eu
aprendi a pensar antes de falar. Acho que isto foi muito útil pra
minha vida. Heheheeh, mas Madre Teresa nao virei ainda!
E agora deixo vocês com um texto muito divertido de Mark Twain sobre a
língua alema. Tudo o que está escrito aí é a mais pura verdade. Me
identifiquei com o texto pra caramba. Faz tempo que eu queria escrever
algo sobre a dificuldade da língua e este texto caiu como uma luva.
Talvez depois de lê-lo possam me entender porque eu fico tao brava
quando alguém simplesmente AFIRMA que alemao é parecido com inglês.
(Só porque to make é machen, house é Haus e cat é Katze nao significa
que os idiomas sejam parecidos, a gramática, fonética e construcao de
frases sao totalmente diferentes). Talvez entendam também porque estou
aqui há um ano estudando e convivendo e só agora consegui ler um
livrinho direcionado ao público adolescente, heheheeheheh!!!
E peco aos descendentes de alemao que eu encontrar, durante as férias
no Brasil, e arriscar trocar algumas palavras no idioma germânico que,
por favor, nao se assustem com o alemao que eu falo!
Beijao, com carinho, Heimweh und Sehnsucht!!!!
Jana
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"A Língua Alemã"- por Mark Twain
"(...) Os alemães usam um outro tipo de intercalação que consiste em
dividir um verbo em duas partes e colocar metade dele no começo de um
excitante capítulo e a outra metade no seu final. Pode alguém conceber
algo mais confuso que isso? Essas coisas são chamadas verbos
separáveis. A gramática alemã está infestada com esses verbos
separáveis, e quanto mais longe conseguir deixar uma parte da outra,
mais feliz vai ficar o autor desse crime. Um dos favoritos é reiste ab
- que significa partiu. Aqui vai um exemplo que eu catei de um romance
e transpus para nossa língua:
"Estando agora as malas prontas, ele PAR - depois de beijar sua mãe e
suas irmãs, e mais uma vez apertar ao peito sua Gretchen adorada, que,
vestida de singela musselina branca, com uma única glicínia
entrelaçada nas generosas tranças de seu rico cabelo castanho, tinha
cambaleado escada abaixo, ainda pálida com o terror e a excitação da
noite passada, mas ansiosa por apoiar sua pobre cabeça dolorida ainda
uma última vez no peito daquele a quem ela amava mais ainda do que a
própria vida - TIU" .
"Não devemos, contudo, perder muito tempo com esses verbos, porque
isso pode nos levar a perder a cabeça; se alguém se fixa nisso e não é
avisado das conseqüências, vai terminando amolecendo o miolo - ou
petrificando-o. Os pronomes pessoais são outro fértil aborrecimento na
língua alemã, e deveriam ser excluídos.
Por exemplo, o mesmo som, sie, significa você, e significa ela, e
significa a ela, e significa ele (neutro), e significa eles, e
significa a eles. Pensem na pobreza esfarrapada de uma língua que
obriga uma palavra a fazer o trabalho de seis - e estou falando de uma
porcariazinha dessas com apenas três letras! Mas, acima de tudo,
pensem na irritação de nunca saber qual desses significados o falante
está tentando me transmitir!
Isso explica por que, sempre que uma pessoa me diz sie, eu tento
matá-lo - se não for um amigo meu, é claro.
"Agora, observem os adjetivos: aqui está um caso em que a simplicidade
do Inglês teria sido de grande vantagem; por isso mesmo - não podia
haver outra razão! - o inventor dessa língua complicou tudo o que
podia. Quando queremos falar de nosso "bom amigo" ou "bons amigos", em
nossa abençada língua, usamos uma só forma e não sentimos remorso com
isso [em Inglês: "our good friend or friends"], mas na língua alemã é
diferente.
Quando um alemão deita as garras num adjetivo, ele vai decliná-lo até
que seu próprio juízo entre em declínio. É tão ruim quanto Latim. Ele
dirá, por exemplo, no singular -
Nominativo: Mein gutER Freund, meu bom amigo.
Genitivo: MeinES gutEN FreunDES, do meu bom amigo.
Dativo: MeinEM gutEN Freund, ao meu bom amigo.
Acusativo: MeinEN gutEN Freund, meus bons amigos.
No plural, muda tudo:
Nominativo: MeinE gutEN FreundE, meus bons amigos.
Genitivo: MeinER gutEN FreundE, dos meus bons amigos.
Dativo: MeinEM gutEN FreundEN, aos meus bons amigos.
E por aí vai - e vá o candidato ao hospício tentar memorizar essas
variações, e vocês vão ver como ele se elege rápido! A única coisa que
pode evitar essa encrenca toda é andar mesmo pela Alemanha sem ter
amigo nenhum. Claro que eu só mostrei o estorvo que é declinar um bom
amigo no masculino; isso é apenas a terça parte da façanha, pois temos
de aprender toda uma outra variedade de distorções do adjetivo quando
se tratar do feminino ou do neutro.
O pior é que existem mais adjetivos nesta língua do que gatos pretos
na Suíça, e todos devem ser caprichosamente declinados do modo como
vimos no exemplo acima. Ouvi um estudante americano em Heildelberg
afirmar, num tom resignado, que preferia declinar dois convites para
beber do que um único adjetivo alemão.
"O inventor dessa língua parece ter se esforçado ao máximo para
complicá-la. Por exemplo, quando referimos despreocupadamente uma
casa, Haus, ou um cavalo, Pferd, ou um cachorro, Hund, escrevemos
assim estas palavras. Contudo, se nos referimos a elas no caso Dativo,
temos de grudar-lhes um tolo "E" desnecessário: Hause, Pferde, Hunde.
Ora, como esse "E" muitas vezes indica o plural, como entre nós
fazemos com o "S", o pobre aprendiz de alemão vai levar no mínimo um
mês pensando que são gêmeos um único cachorro Dativo; por outro lado,
muito estudante novato, sempre com pouco dinheiro, comprou e pagou por
dois cachorros mas acabou só levando um, porque ele, pensando
burramente estar usando o plural, comprou o cachorro no Dativo
singular - o que deixa a lei do lado do vendedor, é claro, pelas
estritas regras da Gramática, não cabendo nenhuma ação legal para
recuperar o dinheiro."
PS da Jana: Sobre o verbo reiste ab, no infinitivo ele é abreisen,
assim junto. E eu traduziria diferente o texto:
"Estando agora as malas prontas, ele TIU (ao invés de PAR porque aqui
se usaria o final do verbo, ou seja: REISEN, conjugado no pretérito e
na pessoa: REISTE) - depois de beijar sua mãe e suas irmãs, e mais uma
vez apertar ao peito sua Gretchen adorada, que, vestida de singela
musselina branca, com uma única glicínia entrelaçada nas generosas
tranças de seu rico cabelo castanho, tinha cambaleado escada abaixo,
ainda pálida com o terror e a excitação da noite passada, mas ansiosa
por apoiar sua pobre cabeça dolorida ainda uma última vez no peito
daquele a quem ela amava mais ainda do que a própria vida - PAR
(porque aqui viria o AB)" .
Observacao: o verbo REISEN sozinho significa viajar... E estes
prefixos (separáveis ou nao!) do verbo como o exemplo do AB, podem
variar agregando significados à acao do verbo ou simplesmente
modificando-o da água para o vinho (Ex. hören é ouvir, mas aufhören é
parar). Agora pára o mundo que eu quero descer!!!! Porém nao vamos
desistir, um dia a gente chega lá!